O Livro

11. Níveis da linguagem cinematográfica

Simplificando um pouco uma questão que pode ser bem complicada, existem dois níveis de apresentação das imagens num filme, dependendo do modo como você pretende que o espectador compreenda a origem do que está sendo mostrado.

(a) a CÂMERA OBJETIVA simplesmente mostra o que acontece na sua frente, sem identificar-se com qualquer personagem em particular. É, a grosso modo, o equivalente a você escrever em “terceira pessoa”: “Clarissa aproxima-se do pobre rapaz e dá-lhe um beijo inesquecível”. Temos dois personagens, e a cena é vista por um narrador que está fora da ação. No cinema, esse narrador é a câmera, que, numa posição neutra, mostra a aproximação de Clarissa e o beijo.

(b) a CÂMERA SUBJETIVA assume um dos personagens, passando a comportar-se segundo seu ponto e vista e seus movimentos. É o equivalente a você escrever: “Eu me aproximo do pobre rapaz e dou-lhe um beijo inesquecível”. Temos dois personagens, mas agora a câmera passa a funcionar como se estivesse “dentro da cabeça” de Clarissa e observasse o mundo com seus olhos.

Como traduzir isso para um filme? Uma solução radical: no começo do plano, vemos apenas o rapaz. A câmera faz um travelling à frente, aproximando-se dele. O rapaz olha para a câmera e demonstra seu nervosismo. Quando Clarissa (que nunca aparece na cena) beija, a câmera deve “beijar” também, ou seja, continuar mostrando a ação sob o ponto de vista dela. O que as pessoas veem enquanto beijam? É uma boa pergunta. Se Clarissa fechasse os olhos, e o plano continuasse subjetivo, a imagem deveria ficar toda escura. O tipo de plano resultante do uso de câmera subjetiva é chamado de PONTO DE VISTA (PV).

Essa radicalidade tem um efeito que pode ser incômodo: o espectador não sabe quem está beijando o rapaz. Se somente o ponto de vista é mostrado, o personagem “dono dos olhos” só aparece no plano se fica na frente de um espelho. Por isso, o usual é, antes ou depois do ponto de vista, mostrar claramente quem é o “dono dos olhos”. Por exemplo, quando começa o beijo, você pode cortar para um plano, em câmera objetiva, mostrando os dois se beijando. O espectador, em sua cabeça, “volta o filme pra trás” e compreende que estava vendo a ação sob o ponto de vista de Clarissa.

Portanto, passar de um nível de linguagem para outro é relativamente simples. O espectador acha que, a princípio, está vendo o filme em câmera objetiva. Para fazê-lo compreender que a tomada é em câmera subjetiva, você deve informá-lo. A maneira mais simples e segura de fazer isso é primeiro mostrar o personagem que vai “assumir” a câmera, num enquadramento bem fechado, em câmera objetiva, e no plano seguinte posicionar a câmera exatamente onde estariam seus olhos, mostrando as coisas sob seu ponto de vista. O plano que informa o espectador sobre quem é o “dono dos olhos” chama-se de DETERMINANTE (DET).

Você pode combinar (ou até confundir intencionalmente) os dois níveis de linguagem numa cena. Por exemplo:

(1) PM – um HOMEM e uma MULHER LOURA, de perfil, olham um para o outro. É um plano de câmera objetiva, usado para posicionar os personagens.

(2) PP – A Mulher Loura caminha olhando para o Homem. Travelling para trás. Mais um plano de câmera objetiva.

 

(3) MPP – a Mulher Loura entra em quadro pela direita e coloca a mão no ombro do Homem. Câmera objetiva.

(4) PP – uma MULHER MORENA observa os dois, que estão em primeiro plano, fora de foco. Contra-plongée. Sem dúvida, câmera objetiva. Funciona como DETERMINANTE do próximo plano e, quem sabe, também do anterior.

(5) MPP (mais fechado que o 4) – Homem e Mulher Loura estão ainda mais próximos. Plongée. É um PV (Ponto de vista) da Mulher Morena. É câmera subjetiva.

(6) PP – do casal. Contra-plongée. Mulher Morena está ao fundo, em P). O beijo vai acontecer. É novamente câmera objetiva.

 

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